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SUS e Sistema Sanitário Italiano: duas histórias, uma ideia de Saúde como direito.

há 2 horas
7 min de leitura
Turistas na Italia

Quem pensa em morar na Itália costuma pesquisar aluguel, trabalho, documentação, transporte e custo de vida. Mas existe uma questão que merece atenção antes mesmo da mudança: como funciona o Sistema Sanitário Italiano?

Para um brasileiro, a comparação com o SUS é quase inevitável. E existe uma curiosidade histórica nessa comparação: embora Brasil e Itália tenham construído seus sistemas públicos de saúde em momentos e contextos diferentes, a experiência italiana teve uma influência importante sobre o movimento da Reforma Sanitária Brasileira que levou à criação do SUS. Ou seja: quando comparamos o SUS ao Sistema Sanitário Italiano, estamos colocando lado a lado dois sistemas que compartilham uma ideia fundamental: a saúde como um direito e não apenas como um serviço que pode ser comprado.


Da Itália ao Brasil

Na década de 1970, a Itália passou por uma profunda transformação na área da saúde.

Em 1978, foi criado o Servizio Sanitario Nazionale (SSN), o sistema público de saúde italiano, resultado de um amplo processo de reforma sanitária e mobilização social. A proposta rompeu com um modelo mais fragmentado e fortaleceu a ideia de que a proteção da saúde deveria ser responsabilidade do Estado e um direito dos cidadãos.

Essa experiência chamou a atenção de pesquisadores, profissionais de saúde e movimentos sociais brasileiros.

A Reforma Sanitária Italiana foi uma das experiências internacionais que mais influenciaram a Reforma Sanitária Brasileira. O pensamento do médico e sanitarista italiano Giovanni Berlinguer, por exemplo, teve grande circulação no meio acadêmico e profissional brasileiro. Poucos anos depois, o Brasil viveria seu próprio processo de transformação. A Constituição Federal de 1988 estabeleceu, no artigo 196: “A saúde é direito de todos e dever do Estado.” Foi uma mudança histórica.

Antes do SUS, o atendimento médico-hospitalar público ligado à Previdência Social era destinado principalmente aos trabalhadores formais e seus dependentes. Quem não estava inserido nesse sistema precisava recorrer ao setor privado ou à filantropia. A Constituição mudou essa lógica e estabeleceu a universalidade do acesso. Em 1990, as Leis nº 8.080 e 8.142 regulamentaram o novo sistema. Nascia o SUS.


A importância do SUS em um país como o Brasil

Quando se fala em SUS, muita gente pensa imediatamente em hospital público, posto de saúde ou pronto-socorro. Mas o SUS é muito maior.

Ele inclui vacinação, vigilância sanitária e epidemiológica, atenção básica, atendimento especializado, transplantes, assistência farmacêutica, ações de prevenção e promoção da saúde, entre muitas outras atividades. É justamente essa dimensão que torna o SUS tão importante em um país como o Brasil.

O Brasil é um país continental, com enormes diferenças econômicas e sociais entre regiões e entre grupos da população. Sem um sistema público universal, o acesso à saúde dependeria muito mais da capacidade individual de pagar por consultas, exames, medicamentos e tratamentos.

Ter um sistema como o SUS significa afirmar, na prática, que uma pessoa não deixa de ter direito à saúde porque não pode pagar por ela. Isso não significa dizer que o SUS seja perfeito. Não é.

Existem filas, desigualdades regionais, falta de profissionais em determinadas áreas, problemas de infraestrutura e dificuldades de gestão. Mas reconhecer esses problemas não diminui a importância do princípio que sustenta o sistema.

Em um país de dimensões continentais e com profundas desigualdades sociais, a existência de uma rede pública universal representa uma conquista fundamental.

O SUS não é apenas um conjunto de hospitais e postos de saúde. É uma política pública que estabelece a saúde como direito de todos.


E como funciona o Sistema Sanitário Italiano?

O sistema público italiano é oficialmente chamado de Servizio Sanitario Nazionale (SSN) e começou a funcionar em 1978.

Assim como o SUS, o Sistema Sanitário Italiano oferece uma rede pública de assistência baseada no princípio da universalidade. Mas sua organização é bastante descentralizada.

As Regiões têm papel fundamental na organização dos serviços, o que faz com que a experiência de utilização do sistema possa variar consideravelmente de uma região para outra.

Para quem mora na Itália, a porta de entrada para muitos serviços passa pelo Medico di Medicina Generale (MMG), ou Medico di Base, o médico de medicina geral, que acompanha o paciente e pode encaminhá-lo para especialistas e outros serviços.

Também é comum ouvir falar em ASL, a estrutura sanitária local responsável por diversos serviços de saúde.


SUS e Sistema Sanitário Italiano: uma diferença importante

É aqui que a comparação fica interessante.

À primeira vista, SUS e Sistema Sanitário Italiano parecem muito semelhantes: ambos são sistemas públicos e universais. Mas o acesso não acontece exatamente da mesma maneira.

No SUS, o princípio constitucional estabelece acesso universal e igualitário às ações e serviços de saúde. O sistema é financiado pelo poder público e o atendimento não depende de o cidadão possuir um plano de saúde ou pagar uma mensalidade para estar no sistema.

Na Itália, embora o Sistema Sanitário Italiano também seja universal, determinados serviços podem envolver o chamado ticket, uma participação do usuário no custo do atendimento.

Além disso, existem regras específicas de inscrição no sistema para estrangeiros, diferentes situações de isenção e diferenças de organização entre as regiões.

Por isso, embora os dois sistemas compartilhem o princípio da universalidade, o SUS pode ser considerado mais acessível financeiramente em determinados aspectos, especialmente porque o acesso aos serviços do sistema não está condicionado ao pagamento de um ticket.

Isso não significa que o Sistema Sanitário Italiano seja “ruim” ou que o SUS seja “melhor em tudo”.

São sistemas que seguiram caminhos diferentes depois de partirem de uma concepção semelhante de saúde como direito.


E para quem é brasileiro e vai morar na Itália?

Para o brasileiro que pretende viver na Itália, é importante não imaginar que basta chegar ao país e utilizar o Sistema Sanitário Italiano exatamente como utilizaria o SUS.

A situação depende do motivo da permanência, do tipo de autorização de residência e das regras aplicáveis à pessoa.

Em determinadas situações, a inscrição no sistema público italiano é obrigatória. Em outras, pode existir a possibilidade de inscrição voluntária, mediante condições específicas.

Depois de inscrito, o cidadão pode ter uma tessera sanitaria, documento utilizado para acessar diversos serviços do sistema de saúde.

Para quem está planejando uma mudança de país, compreender essas diferenças antes da viagem pode evitar surpresas.

E existe ainda outro aspecto que costuma ser subestimado: a língua.


Para quem pretende trabalhar na área da saúde

Conhecer o Sistema Sanitário Italiano não é importante apenas para quem vai ser paciente.

Existe também um público específico para quem esse conhecimento pode fazer parte de um projeto profissional: brasileiros da área da saúde que pensam em trabalhar na Itália.

Médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, psicólogos, farmacêuticos, técnicos e outros profissionais que pretendem atuar no país precisam compreender que migrar profissionalmente não significa simplesmente traduzir um diploma.

Existem procedimentos específicos relacionados ao reconhecimento das qualificações profissionais e ao exercício de cada profissão. As exigências variam de acordo com a área e com a situação do profissional.

Mas existe uma outra preparação que começa antes mesmo da burocracia: aprender a se comunicar profissionalmente em italiano.

Um profissional pode ter um bom conhecimento geral da língua e ainda encontrar dificuldades para compreender uma orientação, registrar informações em um prontuário, conversar com familiares, participar de uma reunião de equipe ou explicar um procedimento a um paciente.

Algumas palavras fazem parte do cotidiano de quem trabalha na área:

  • il reparto — o setor / a enfermaria

  • la cartella clinica — o prontuário

  • il paziente / la paziente — o paciente / a paciente

  • la prescrizione — a prescrição

  • il turno — o plantão / o turno de trabalho

  • la visita — a consulta / avaliação

  • l'infermiere / l'infermiera — o enfermeiro / a enfermeira

  • il medico — o médico

  • il farmaco — o medicamento

Esse vocabulário, porém, é apenas o começo.

Na área da saúde, comunicação envolve precisão. É preciso saber perguntar, explicar, registrar, orientar e compreender — muitas vezes em situações nas quais não existe espaço para ambiguidades.

Por isso, para quem pretende trabalhar no Sistema Sanitário Italiano, o italiano não é apenas um requisito para viver no país. É uma ferramenta de trabalho.


Aprender italiano também é aprender a cuidar de si

Mesmo quem não pretende trabalhar na área da saúde precisa conhecer algumas palavras básicas do sistema.

Quem mora na Itália pode precisar marcar uma consulta, explicar um sintoma, entender uma receita, conversar com um médico ou descobrir onde fica uma ASL.

Algumas palavras aparecem constantemente:

  • la tessera sanitaria — o cartão de saúde

  • il medico di base — o médico de medicina geral

  • la ASL — a estrutura sanitária local

  • il pronto soccorso — o pronto-socorro

  • la ricetta — a receita

  • la visita specialistica — a consulta com especialista

  • le analisi — os exames laboratoriais

  • il ticket — a participação no custo de determinados serviços

  • le liste di attesa — as listas de espera

Nesse contexto, aprender italiano deixa de ser apenas uma questão de comunicação.

É também uma forma de compreender melhor os serviços públicos, conhecer seus direitos e participar da vida cotidiana no país.

Para o profissional da saúde, essa necessidade é ainda maior: é preciso compreender não apenas a língua italiana, mas a linguagem profissional da área.


Duas experiências, uma mesma ideia

A história do SUS e do Sistema Sanitário Italiano mostra algo interessante.

O Brasil olhou para experiências internacionais — entre elas, a italiana — durante sua Reforma Sanitária. Mas não simplesmente reproduziu o modelo.

O SUS foi construído dentro da realidade brasileira e incorporou princípios próprios, como universalidade, integralidade, equidade, descentralização e participação social.

E talvez seja justamente essa a parte mais importante dessa história.

Em um país com mais de 200 milhões de habitantes e enormes desigualdades sociais e territoriais, ter um sistema público universal significa criar uma rede que não exclui alguém simplesmente porque essa pessoa não pode pagar.

O SUS tem problemas — muitos deles conhecidos por quem depende dele diariamente.

Mas sua existência representa uma conquista social fundamental: a saúde pública no Brasil não é uma concessão para quem não pode pagar. É um direito constitucional.

E conhecer essa história também ajuda a entender melhor a Itália.

Porque, quando um brasileiro chega ao Sistema Sanitário Italiano, não está simplesmente encontrando “o SUS italiano”.

Está encontrando um sistema que tem uma história própria, que ajudou a inspirar parte da transformação brasileira e que, ao longo das décadas, seguiu um caminho diferente.

Para quem vai viver na Itália, o italiano é uma ferramenta para compreender o sistema.

Para quem vai trabalhar nele, é também uma ferramenta profissional.

Duas experiências.

Dois países.

E uma ideia que atravessou o Atlântico: saúde como direito.


1 comentário

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há 43 minutos
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Penso che sia più importante che questa informazione pubblicata qui sia conosciuta dai brasiliani, così potrebbero valorizzare di piú la politica pubblica!

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