São Francisco de Assis, Itália e a celebração dos 800 anos de sua morte.

Em 2026, a Itália voltou a ter o dia 4 de outubro como festa nacional. A data marca os 800 anos da morte de São Francisco de Assis e recoloca no centro do país uma figura que ultrapassou os limites da religião para se tornar parte da história, da cultura, da literatura e da identidade italiana.
No domingo, 4 de outubro de 2026, Assis foi o centro das comemorações do oitavo centenário da morte de Francisco. O presidente da República Italiana, Sergio Mattarella, participou da cerimônia na Basílica de São Francisco, ao lado do cardeal Matteo Maria Zuppi e de autoridades italianas e representantes internacionais.
A ocasião teve ainda um significado especial: pela primeira vez desde a retomada da data como feriado nacional, os italianos celebraram oficialmente o 4 ottobre como festa nacional de São Francisco.
A mudança foi estabelecida pela Lei nº 151, de 8 de outubro de 2025, que entrou em vigor em 1º de janeiro de 2026. O texto da lei associa a celebração aos valores da paz, fraternidade, proteção do meio ambiente e solidariedade.
Mas por que uma figura que viveu no século XIII continua tão presente na Itália do século XXI?

Francisco nasceu em Assis, na Úmbria, por volta de 1181 ou 1182, filho de uma família ligada ao comércio de tecidos. Seu nome de batismo era Giovanni di Pietro di Bernardone, mas ficou conhecido como Francesco.
Sua juventude foi marcada por uma vida confortável. Filho de um comerciante próspero, Francisco viveu inicialmente como muitos jovens de sua época: participava de festas, tinha ambições militares e desejava alcançar prestígio social.
A experiência da guerra e, posteriormente, o contato com pessoas pobres e doentes provocaram uma mudança profunda em sua vida.
Francisco começou a abandonar os bens materiais e escolheu uma vida de pobreza e simplicidade. Ao seu redor formou-se uma comunidade de seguidores, dando origem à Ordem dos Frades Menores, os franciscanos.
Seu modo de viver representava uma ruptura com os valores de riqueza e poder de seu tempo. Francisco buscava uma relação diferente com os pobres, com os outros seres humanos e com a natureza.
Francisco morreu na noite entre 3 e 4 de outubro de 1226, em Assis. Foi canonizado apenas dois anos depois, em 1228, pelo papa Gregório IX.
Oito séculos depois, sua cidade natal voltou a receber milhares de pessoas para as celebrações do aniversário de sua morte.
O 4 de outubro voltou a ser festa nacional na Itália

Existe uma curiosidade histórica importante por trás da celebração deste ano.
A partir de 2026, o 4 ottobre passou oficialmente a ser uma festa nacional italiana dedicada a São Francisco d'Assisi, patrono da Itália. A lei estabelece que a data deve promover valores como paz, fraternidade, solidariedade e proteção do meio ambiente.
Isso explica a dimensão das celebrações deste ano.
Em Assis, a cerimônia contou com a participação do presidente Sergio Mattarella, que falou sobre a atualidade da figura de Francisco. Em seu discurso, destacou temas como dignidade humana, paz, respeito pelo meio ambiente e crítica à valorização excessiva do dinheiro.
O cardeal Matteo Maria Zuppi, durante a celebração religiosa, também colocou a paz no centro de sua reflexão, afirmando que a guerra não deve ser considerada um destino inevitável.
Assim, o aniversário de 800 anos não foi tratado apenas como uma comemoração histórica. A Itália utilizou a figura de Francisco para discutir questões muito contemporâneas.
São Francisco e a cultura italiana
A influência de Francisco não ficou restrita à religião.
Sua imagem aparece há séculos na pintura, na escultura, na literatura, na música e no cinema. Assis transformou-se em um dos lugares mais conhecidos da Úmbria e em um importante destino de peregrinação e turismo cultural.
Mas existe uma relação ainda mais interessante para quem estuda italiano: Francisco está ligado a um dos textos fundamentais da história da língua italiana.
O Cantico delle creature

Entre os textos associados a Francisco está o Cantico delle creature, também conhecido como Cantico di Frate Sole.
Escrito provavelmente no início do século XIII, o texto é considerado uma das primeiras grandes obras poéticas produzidas em uma forma de língua vulgar italiana.
Francisco chama o sol de “fratello” e a lua e as estrelas de “sorelle”.
A natureza aparece como parte de uma criação da qual o ser humano também participa.
Essa escolha é importante para a história da língua.
Francisco viveu em uma época em que a Península Itálica não possuía uma língua nacional unificada. O latim predominava nos textos religiosos e eruditos, enquanto diferentes variedades locais eram utilizadas no cotidiano.
Uma pequena curiosidade linguística
Algumas palavras italianas relacionadas a esse universo continuam muito presentes:
il frate — o frade
la fraternità — a fraternidade
la creatura — a criatura
il creato — a criação
la povertà — a pobreza
la pace — a paz
A palavra frate, por exemplo, vem do latim frater, “irmão”. A mesma raiz está relacionada a palavras como fratello e fraternità.
É um bom exemplo de como aprender uma língua também significa conhecer as histórias que existem por trás das palavras.
O homem que virou símbolo de humildade e de humanidade.

Talvez uma das razões para a permanência de Francisco esteja justamente na capacidade de sua figura ser reinterpretada.
No século XIII, ele foi um religioso que escolheu a pobreza e a simplicidade. Ao longo dos séculos, tornou-se personagem da literatura e da arte. Mais recentemente, sua imagem passou a ser associada também a temas como meio ambiente, diálogo e paz.
Em 2013, quando Jorge Mario Bergoglio escolheu o nome Francisco ao se tornar papa, explicou que havia pensado especialmente em São Francisco de Assis.
A escolha fez com que o nome do santo italiano voltasse ao centro do debate mundial.
E em 2026, durante as comemorações dos 800 anos de sua morte, o próprio Estado italiano voltou a utilizar sua figura como referência para refletir sobre questões do presente.
O governo italiano também promoveu durante o ano a campanha “San Francesco, un'esplosione di vita”, criada para apresentar a figura do santo como alguém ainda capaz de dialogar com diferentes públicos, religiosos ou não.
Além disso, as iniciativas do oitavo centenário receberam reconhecimento da UNESCO no programa de aniversários de 2026–2027.
São Francisco também está em São Paulo

A comemoração dos 800 anos não ficou restrita à Itália.
Em São Paulo, o Instituto Italiano de Cultura apresenta a exposição “Guido Totoli e San Francesco. Terra, Trasformazione, Spirito”, dedicada à obra do artista italiano Guido Totoli.
A exposição reúne trabalhos que dialogam com a figura de São Francisco e faz parte do ciclo de iniciativas promovidas pelo Instituto em homenagem aos 800 anos de sua morte.
Ela pode ser visitada gratuitamente na sede do Instituto Italiano de Cultura, na Avenida Higienópolis, 436, até 8 de novembro de 2026.
É uma oportunidade interessante para observar como uma figura medieval continua servindo de inspiração para a arte contemporânea — oito séculos depois de sua morte.
Por que São Francisco ainda interessa à Itália?

A resposta talvez esteja justamente na distância entre o século XIII e o presente.
Francisco viveu em uma sociedade completamente diferente da nossa. Não conheceu os problemas ambientais atuais, as guerras modernas, a sociedade de consumo ou os conflitos políticos contemporâneos.
Ainda assim, algumas das questões que sua vida colocou continuam sendo discutidas.
Quanto precisamos ter? Como convivemos com quem é diferente de nós? Como tratamos a natureza? É possível falar de paz em um mundo marcado por conflitos?
É por isso que, 800 anos depois, a Itália não está apenas lembrando um personagem do passado. Está utilizando uma figura da própria história para pensar sobre o presente.
E talvez seja justamente essa uma das características mais interessantes da cultura italiana: a capacidade de fazer com que história, arte, língua e vida contemporânea continuem conversando entre si.
Para quem está em São Paulo
Se você estiver em São Paulo, a exposição de Guido Totoli no Instituto Italiano de Cultura é uma boa oportunidade para continuar essa descoberta e observar como São Francisco pode ser reinterpretado pela arte contemporânea.
E, para quem estuda italiano, há ainda outro caminho possível: conhecer o Cantico delle creature e descobrir como uma língua que começou a se consolidar há tantos séculos chegou até o italiano que estudamos hoje.
O que você acha que faz uma história de 800 anos continuar fazendo sentido no mundo contemporâneo?
#Assisi #Umbria #CanticoDelleCreature #ArteItaliana #InstitutoItalianoDeCultura #ImigraçãoItaliana #ItalianosNoBrasil #CulturaEHistória #ItalianoNoBrasil #iicsp #guidototoli #istitutoitalianodicultura




Comentários